Quando olhamos para a anatomia do pescoço, não vemos apenas músculos, nervos e vasos; vemos a infraestrutura da identidade humana. É por aqui que respiramos, nos comunicamos e nos nutrimos. Por isso, quando um carcinoma epidermoide — o tipo mais comum de câncer nessa região — se manifesta, o tratamento não pode ser uma ação isolada. Ele exige uma estratégia de cerco. A pergunta que fazemos no consultório não é apenas “como remover o tumor?”, mas “como garantir que o paciente mantenha sua funcionalidade e dignidade após a cura?”. O carcinoma epidermoide nasce nas células escamosas que revestem a boca, a garganta e a laringe. Imagine essas células como o “piso” que reveste um ambiente; quando elas se tornam malignas, começam a infiltrar as camadas mais profundas. Em muitos casos, a cirurgia é a nossa primeira e mais potente linha de defesa. No entanto, em tumores mais avançados ou localizados em áreas de alta complexidade funcional, a faca do cirurgião ganha uma aliada indispensável: a radioterapia. O tabuleiro estratégico: Quando a união faz a força A coordenação entre o cirurgião de cabeça e pescoço e o rádio-oncologista assemelha-se a uma operação militar de precisão. Em cenários de tumores de laringe ou orofaringe, por exemplo, enfrentamos um dilema: a remoção total pode erradicar a doença, mas comprometer a voz. É aqui que entra a sensibilidade estratégica. Cirurgia de Resgate ou Primária: Se o tumor é operável e as margens podem ser preservadas, a cirurgia limpa o terreno, removendo a massa visível e os linfonodos comprometidos. Radioterapia Adjuvante: Após a cirurgia, se a análise patológica mostrar que o tumor era mais agressivo do que o esperado ou se as margens estavam “apertadas”, a radiação entra como uma varredura microscópica, eliminando células residuais que o olho humano e o bisturi não alcançam. Quimiorradioterapia Concomitante: Em alguns casos, usamos a quimioterapia para “sensibilizar” as células cancerígenas, tornando a radioterapia ainda mais letal para o tumor, muitas vezes tentando evitar uma cirurgia mutilante.
O papel da tecnologia no diagnóstico e execução Não se traça um plano de guerra sem um mapa preciso. Exames como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética nos dão o volume do problema, mas a nasofibrolaringoscopia — uma endoscopia flexível feita no consultório — nos permite ver a dinâmica das pregas vocais e da deglutição em tempo real. Um cenário prático que ilustra bem essa integração é o tratamento de tumores de glândulas salivares ou de base de língua. Muitas vezes, utilizamos a cirurgia minimamente invasiva para reduzir o trauma físico e, semanas depois, iniciamos o protocolo de radiação. Esse intervalo é crítico: o tecido precisa cicatrizar para suportar a carga de energia da radioterapia, mas não podemos esperar tanto a ponto de permitir que a doença se reorganize. Além da técnica: O fator humano A jornada oncológica gera uma ansiedade profunda, não apenas pelo diagnóstico, mas pelas sequelas potenciais como a disfagia (dificuldade de engolir) ou alterações na voz. O planejamento estratégico moderno foca intensamente na reabilitação precoce. Ter um fonoaudiólogo e um nutricionista integrados à equipe desde o primeiro dia de pós-operatório não é um luxo, é parte do tratamento.
Dr Stéfano Fiúza – Cirurgião de Cabeça e Pescoço
Visc. de Pirajá, 303 – 9º Andar – Ipanema, Rio de Janeiro – RJ, 22410-001
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